...e assim caminha a humanidade...

"Não tenha medo da perfeição. Você nunca vai atingí-la." (Salvador Dali)
"Et quacumque viam dederit fortuna sequamur." (Virgílio)
"Always think about a coloured tequila sunrise life." (Felipe Edlinger)
"Foda-se a balada, o que importa é a companhia." (Felipe Edlinger)
______________________________________________________________

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

[Web] O Terceiro Homem que Andou na Água

Os três homens que andaram sobre as águas tinham cada um, suas razões:

• O primeiro foi Jesus Cristo, que tinha poder.
• O segundo foi Pedro, pela fé.
• O terceiro foi Cleidinildo, por estar se cagando de medo (veja foto logo abaixo).

terça-feira, 2 de outubro de 2007

[MovRev] V de Vingança

(V for Vendetta)

Directed by James McTeigue

Honestamente, sou um fã de histórias em quadrinhos, ou comics, como alguns gostam de chamá-las. Lembro-me de que, a certa época, eu era capaz de comprar todos os gibis mensais (nome carinhoso para mim e sem uma pitada de menosprezo) disponíveis nas bancas de jornais e ainda comprar inúmeros outros em sebos ou revistarias de usados.

Hoje, não tenho mais esse costume, talvez repreensível, de me dedicar a historinhas coloridas. Grandes amigos meus ainda se dedicam piamente a essa arte e, por mais esse motivo, sou fã deles. Confesso que ainda tenho vontade de ler, ler e ler o mundo fascinante de super-heróis, porém, a falta de tempo me fez fazer uma escolha pelas graphic novels.

Graphic Novels são, para os menos informados, as mesmas histórias em quadrinhos, porém, realizadas com tratamento diferenciado, desde a sua concepção até o papel no qual elas são impressas. Histórias mais adultas, já nascidas clássicas, apresentando histórias fechadas e que, quase sempre, têm um enredo rebuscado, muito bem trabalhado e de complexidade avançada.

Uma das graphic novels que mais gostei de ler foi exatamente V de Vingança, a qual tenho em minhas mãos no momento, escrita pelo fantástico Allan Moore, autor de inúmeras obras, consideradas o primor do universo dos quadrinhos, como Monstro do Pântano (1983), Wathcmen (1986), A Liga Extraordinária (1999), Do Inferno (1999), entre outros títulos não menos importantes.

Existe uma sina das histórias em quadrinhos e livros não serem bem transcritos para o cinema, por diversas razões, como foco no lucro, dificuldade de adaptação da história, personagens não convincentes e roteiro mal feito.

Apesar de ter sido rejeitada pelo próprio Allan Moore, essa adaptação de V de Vingança é tão boa, que melhorou a história criada por Moore, com efeitos especiais de gente grande, atuações de ídolos consagrados pelo grande público e um roteiro enxuto e coerente. Talvez, seja até por isso que o autor não tenha aprovado a produção final, por ser superior ao seu próprio trabalho.

A história se passa na Londres futurista de 1997 (ao menos para a época em que a história foi criada, 1972), dominada pelo fascismo de um ditador, onde as pessoas são sufocadas pelas crueldades, absurdos e proibições impostos pelo governo. O mundo é caótico e a Grã-Bretanha é um dos últimos lugares em que a "ordem" impera. É neste cenário que surge um anti-herói, nominado apenas como "V", que pretende promover uma revolução em busca da liberdade da população, tanto física quanto mental e espiritual, atingindo o pilar do governo. Ele utiliza uma máscara inspirada em Guy Fawkes, um mercenário que tentou explodir o Parlamento inglês, em 5 de novembro de de 1605, e promete destruir o prédio em um ano, a partir de sua primeira aparição.

"V" é interpretado por Hugo Weaving, o eterno Agente Smith de Matrix e o elfo Elrond, de O Senhor dos Anéis. Sua presença garante ao longa a verossimilhança necessária para uma obra como esta, com sua presença e voz marcantes, uma vez que ele utiliza a máscara em todos os segundos em que está em cena. O rol de atores se extende com Natalie Portman, uma das namoradinhas de Hollywood, como Evey, garota em quem V desperta o ideal revolucionário. E não para por aí porque somos presenteados com boas interpretações de Stephen Rea (Traídos pelo Desejo), Stephen Fry (Um Peixe Chamado Wanda) e John Hurt (O Homem Elefante).

Os efeitos especiais, os cenários, a fotografia e as coreografias são capítulos a parte nesta produção. São tão bem elaborados que praticamente atuam como um outro personagem dentro da trama. As cenas inspiradas em Matrix, com câmeras lentas e rápicas, close-ups e panorâmicas transmitem perfeitamente, tanto a ação quanto a angústia dos personagens.

Apesar do tema ser subversivo demais para algumas opiniões, o assunto é tratado com poesia latente, forte e sensível. A queda do império para o ressurgimento das cinzas, o choque para acordar a massa e sair da inércia é transcrito por meio de rosas para os mortos, rimas com a letra V e música clássica para os ouvidos.

Definitivamente, uma obra marcante, tanto nos quadrinhos quanto nos cinemas. De preferência, para se ter em casa e ser revista, sempre que possível. Lembrem, lembrem, o cinco de novembro...

Nota: 9/10

Felipe Edlinger
02 de outubro de 2007

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

[MovRev] Minority Report - A Nova Lei

(Minority Report)

Directed by Steven Spielberg

O que aconteceria se juntássemos os maiores astros do momento para a realização de um filme? Eu diria que dependeria, e muito, dos gêneros nos quais esses maiores astros se consagraram.

Porém, uma vez que temos dois super astros reconhecidos por seus filmes (e dilheterias) de ação, o resultado seria, sem surpresa alguma, uma obra excitante, rápida, envolvente e de muito apelo comercial, que não deixaria nenhuma interrogação sobre quem são os donos do pedaço.

A primeira experiência entre Steven Spielberg e Tom Cruise resultou em uma ficção científica de primeira qualidade, de repercussão imediata e grande sucesso, nos cinemas, nos disquinhos e na televisão.

Tom Cruise é John Anderton, um policial que trabalha na divisão de Pré-Crime de Washington D.C., em 2054. A divisão conta com três seres humanos, modificados geneticamente e chamados Pre-Cogs, que têm poderes especiais de ver o futuro e, com isso, conseguem identificar quando um crime irá acontecer, o que leva o time de Anderton a impedir o fato. O crime na cidade foi drasticamente reduzido à zero. Tudo ocorre normalmente, quando os Pre-Cogs prevêm que Anderton cometerá um crime nas próximas 36 horas. Com isso, o policial tem que fugir de sua própria equipe e provar sua inocência, além de desmascarar uma conspiração contra ele.

O roteiro e a trama do filme são muito bem amarradas e orquestrados por quem entende do assunto (ou seja, Spielberg), trazendo reviravoltas, intrigas, mistérios e assassinatos. As cenas de ação são formidáveis, lembrando os bons filmes de Tom Cruise, como a série Missão Impossível nas diversas cenas em que o ator pula de carro em carro, é perseguido por policiais ou resgata pessoas.

As cenas futuristas muito bem realizadas, com efeitos especiais que não devem nada à nenhum ganhador do Oscar, transmitem idéias e tecnologias vindouras de dar água na boca, nos permitindo dar uma pequena olhada no mundo do amanhã, o que remete as diversas previsões e viagens de Stanley Kubrick, em 2001, Uma Odisséia no Espaço.

A caracterização de época e a fotografia ganham grande importância com as cores desbotadas e pastéis de um futuro insípido e estéril, quando a sociedade é controlada e padronizada para que anomalias não surjam e poluam o pseudo mundo perfeito.

Voltando a Tom Cruise, ele interpreta, em seu melhor, o papel de herói de ação, atirando, esmurrando, fingindo, fugindo, extraindo um olho, virando a situação a seu favor, etc, etc, etc. Já o vimos sendo um personagem bacana em Cocktail e Negócio Arriscado, ou um personagem com incertezas em Magnolia, Vanilla Sky e De Olhos Bem Fechados. Aqui, ele é uma mistura dos dois tipos, mesclando tristeza e pesar na interpretação, causados pela perda do filho pequeno, da qual se culpa até hoje, com roupas e apetrechos bacanas e agilidade de herói cool.

O contraponto vem de Colin Ferrell, eficiente como o antagonista (até certo ponto) do personagem de Cruise. Sarcástico e prepotente, ele é a medida exata para tentar mandar John Anderton para a cadeia. É tão assertivo que nos deixa com raiva, devido à sua persistência.

Mas o show, mesmo, fica por conta de Tom Cruise, que lidera toda a ação na produção, e Steven Spielberg, que indica o caminho correto para o herói.

Nota: 8/10

Felipe Edlinger
01 de outubro de 2007

[Felipe's MFQ] Jurassic Park

Dr. Ian Malcolm:
"I'm simply saying that life finds a way."

1993. Jeff Goldblum in Jurassic Park

domingo, 30 de setembro de 2007

[MovRev] O Guia do Mochileiro das Galáxias

(Hitchhiker's Guide to the Galaxy)

Directed by Garth Jennins

Douglas Adams é um dos escritores mais brilhantes de todos os tempos. Seu estilo escrachado e non-sense, e ainda melhor, ácido, irônico e sarcástico, conquistou gerações de leitores e vendeu mais de 15 milhões de cópias de seus livros ao redor de todo o mundo. E continua encantando muita gente, mesmo com a morte precoce do escritor, aos 49 anos, em 2001.

Enquanto a série Guerra nas Estrelas acumula uma legião de fãs considerados nerds, a série O Guia do Mochileiro das Galáxias incorporou um certo ar cult, até porque ela é muito menos conhecida do que a dos sabres de luz e cavaleiros Jedis.

O humor é tão absurdo que fica claro que nem o próprio autor não a levava muito a sério, tanto que a inspiração para escrevê-la veio quando, segundo o próprio Adams, ele estava bêbado em algum lugar de Innsbruck, na Áustria.
Porém, é um humor inteligente e afiado, típico das novelas inglesas.

Não são todos que se identificam com O Guia do Mochileiro, ou ao menos passam das 50 primeiras páginas, tamanhos são os pontos de interrogação que pairam sobre a cabeça de quem o tenta ler. O caráter imaginativo/ criativo de Adams precisa se fazer entender primeiro para depois ser compreendido.

O mesmo ocorre com as versões multimídia do livro, seja a versão original para rádio, de 1977, ou a versão podreira para a rede de TV BBC, de 1981, ou ainda esta versão mais recente para cinemas.

O filme conta a história de Arthur Dent (Martin Freeman), inglês sossegado que tem a casa demolida, e seu amigo Ford Prefect (Mos Def), um alienígena disfarçado de ator desempregado que fazia pesquisa na Terra para o tal O Guia do Mochileiro das Galáxias, em uma jornada pelo universo em busca do planeta Mangrathea, a bordo da nave Coração de Ouro.

Parece confuso? Sim, parece, e até é. Isso sem mencionar o fator de improbabilidade da nave Coração de Ouro, o super computador Pensador Profundo, o presidente da galáxia Zaphod Beeblebrox, o peixe tradutor Babel, os terríveis e idiotas Vogons, a bebida Dinamite Pangaláctica, o robô pessimista Marvin, entre outras loucuras mochileiras.
O segredo é esperar de tudo e nunca levar nada a sério, caso contrário você é um sério candidato a achar o filme um lixo universal.

Os cenários são bacanas e bem elaborados, principalmente se levarmos em consideração a mente doentia de Douglas Adams; são planetas, personagens e situações totalmente diferentes do que uma mente comum - e sã - pode elaborar.

Os personagens, então, são fascinantes, interpretados por bons e conhecidos atores, como o próprio Martin Freeman, da série The Office, que interpreta o deslocado inglês Arthur Dent. Além dele, há o rapper Mos Def, que faz o papel do alienígena Ford Prefect, Sam Rockwell como Zaphod Beeblebrox, o inacreditável presidente da galáxia, Bill Nighy, John Malkovich, Stephen Fry (narrador da história), Alan Rickman, a voz do entediado robô Marvin, e a gracinha Zooey Deschanel, que interepreta Trilliam, paixão de Arthur.

Porém, para quem não leu o livro, existe uma grande possibilidade de não conseguir entender nadinha da silva; como já disse, a história é confusa, não pela trama ser um emaranhado de informações, mas pelo fato das informações em si serem quase inconcebíveis. Por outro lado, para quem já leu o livro (ou os livros), é fácil notar que muitas coisas foram modificadas para a versão cinematográfica, não necessariamente para o bem da obra, na opinião dos fãs.

Infelizmente, o filme não foi muito bem nas bilheterias, o que já era até de se esperar por ser a) uma comédia britânica e b) baseado em um livro de Douglas Adams. É uma pena porque os outros livros da trilogia de cinco são tão bons quanto o primeiro.

Para quem ficou curioso ou assistiu o filme e realmente ficou interessado pela obra de Adams, sugiro a leitura de todos os livros, começando, é claro, por O Guia do Mochileiro das Galáxias. Se, depois das quase 200 páginas de humor non-sense do primeiro livro, você ainda estiver entusiasmado, passe para 2) O Restaurante no Fim do Universo, 3) A Vida, o Universo e Tudo Mais, 4) Até Mais e Obrigado pelos Peixes; e 5) Praticamente Inofensiva (livro alternativo considerado a quinta parte da trilogia - sim, Adams se referia a sua obra dessa maneira... trilogia).

E para quem tem alguma dúvida sobre o refinamento do humor de Dougla Adams, aqui vai uma pequena dose: "É um fato importante e conhecido que as coisas nem sempre são o que parecem. Por exemplo, no planeta Terra, os homens sempre se consideraram a espécie mais inteligente a habitar o planeta, e não a terceira mais inteligente. A segunda era, é claro, os golfinhos que, curiosamente, há muito sabiam da iminente destruição do planeta. Eles tentaram alertar a humanidade, mas seu modo de comunicação era interpretado como gestos lúdicos. Então, eles decidiram abandonar a Terra por conta própria. Sua última mensagem foi entendida como uma sofisticada tentativa de dar uma cambalhota dupla para trás assobiando o hino dos EUA. Mas, na verdade, o significado era: 'Adeus, e obrigado por todos os peixes".

Incrível, certo? Agora, quer saber qual é a espécie mais inteligente do planeta Terra? Sugiro que leia o livro, ou assistia ao filme.

Nota: 6.5/10

Felipe Edlinger
30 de setembro de 2007

sábado, 29 de setembro de 2007

[CineBras] BOPE Tropa de Elite

(BOPE Tropa de Elite)

Directed by José Padilha

Antes de mais nada, eu gostaria de pedir desculpas pelas minhas palavras e pelo meu linguajar mas, puta que pariu, esse filme é do caralho!

O mais recente trabalho do diretor José Padilha, responsável por Ônibus 174 (2002), é um excelente exemplo de cinema moderno, sem deixar de lado o cunho social. Ainda mais contundente do que Cidade de Deus e Carandiru, este Tropa de Elite retrata a realidade de uma parte da sociedade que não queremos ver, a polícia brasileira.

José Padilha conta a saga do Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, líder e comandante de uma das tropas do BOPE, o Batalhão de Operações Policiais Especiais. Nascimento, apaixonado, fiel e dedicado a profissão, se encontra no meio de um conflito pessoal entre ser pai, ver o filho nascer e crescer ou continuar no BOPE, enfrentando a dureza e a incerteza do cotidiano no comando da tropa. Decidido a abandonar o comando, ele agora precisa indicar um substituto para a sua função, que reside na escolha de Neto (Caio Junqueira), que sempre teve o desejo de ser policial, tem sangue fervendo nas veias e a mente focada no exercício brutal de todas as horas, ou de Matias (André Ramiro), que estuda advocacia e sempre procura raciocinar antes de agir. A dificuldade se encontra em quem seria um melhor comandante, o coração de Neto ou a cabeça de Matias.

O pano de fundo da trama mostra o planejamento do BOPE para garantir a segurança do Papa João Paulo II que, durante visita ao Rio de Janeiro, faz questão de dormir em uma favela. O Capitão Nascimento contraria as decisões dos superiores, mas respeita a hierarquia da força policial, desde que essas não conflitam com sua filosofia profissional pessoal.

Aliás, Wagner Moura também é f***. Um dos grandes destaques do cinema nacional, junto com o conterrâneo Lázaro Ramos, ele é a alma do filme com seu líder de tropa. Apesar de ter interpretado um ou dois personagens estereotipados no passado, aqui ele literalmente arrebenta. Ele não demonstra perdão, mete porrada, esculacha, dá tiro na cara e não pensa duas vezes, e nas poucas vezes que isso acontece, o coração fala mais alto.
O personagem dele tem filosofias fortes, afinal, afirma que quem coopera com bandido é cúmplice de bandido, independente das condições e situações, inclusive relacionado a colegas de profissão; pra ele, policial corrupto não tem vez. Pessoalmente, acredito que devam existir exceções, mas isso depende do ponto de vista e repertório de cada um.

Nascimento enfrenta a barra pesada das decisões do dia a dia, tendo que manter a mente forte e o coração frio, o que pode influenciar sua vida pessoal e familiar. O peso da responsabilidade e a ineficiência do próprio sistema, com seus olhos cegos (ou que não querem ver), reflete em doses cavalares de remédios tranquilizantes e culmina no maltrato da própria esposa em "defesa" dos seus liderados.

Realmente, é uma luta complicada e, quase sempre, desonesta. Ainda mais quando vivemos no meio de uma Guerra Civil, que somente as autoridades não querem admitir, e as tropas precisam estar sempre nas ruas para resolver os "problemas", quase sempre de maneira pouco ortodoxa. Como dito, corrupção não tem vez.

Mas não é apenas de maus elementos que o filme fala; na verdade, a dita bandidagem é somente um elemento coadjuvante do longa metragem, os verdadeiros acusados são os que estão a favor da lei e fazem de tudo para se dar bem, mesmo que seja colaborar com o outro lado.
Porém, as justificativas são inúmeras, mas quando começam os subornos e as corrupções, a história não tem fim aparente. Começa em casa, na escola, na vida, na faculdade, no trabalho. O engraçado é que as consequências são medidas apenas no final, quando o ajuste de contas parece chegar mais perto.

A podridão e os esquemas utilizados dentro das nossas forças policiais, por muitos nem imaginados, é exposto tão cruamente que faz nascer em qualquer ser humano o sentimento de raiva, ódio e descontentamento com as impunidades. As hierarquias opressoras das instituições públicas, baseadas no poder, talvez resquício dos pensamentos militares que populam o âmago dos nossos centros públicos, revoltam a todos pelo simples fato de revogar os direitos humanos. Apenas para citar alguns exemplos, são agendamentos de férias feitos mediante suborno, coleta de dinheiro de traficantes, deslocamento e eliminação de policiais honestos, desova de corpos em lugares diferentes (por policiais) para diminuir o índice de homicídios na região dos Departamentos de Polícia, entre outros.

Mas bandidagem só existe porque há corrupção e vice-versa. O problema é muito mais embaixo do que pensamos e vemos nas mídias espalhadas pelo país a fora. E vale lembrar que a grande maioria dos moradores de favelas são pessoas comuns e honestas que, sem oportunidades melhores na vida, vêm nessas comunidades a única chance de sobrevivência com um mínimo de dignidade.

O problema é do Estado e, aparentemente, o Estado e nossos líderes políticos não fazem nada para resolvê-lo. A educação é uma possível solução para oprimir a miséria, o tráfico, os roubos e outros delitos cometidos pelos menos favorecidos, expressão em moda hoje em dia. A verdade é que policias não seriam corruptos se não ganhassem miséria, tendo que fazer serviços ilícitos por fora para garantir o próprio sustento. É claro que também existe a ganância, mas ela não é um fator determinante. A ganância não influencia milhões a roubarem 10 reais, mas 10 a roubarem milhões.

E ainda existe a impunidade das classes média e alta, expressa sem nenhum pudor durante toda a história. Os jovens com dinheiro que fomentam o tráfico de drogas, com os beseados e "tiros" de final de semana, são colocados como os grandes responsáveis pelo sustento dos traficante, pela morte de criança e adolescentes, e pela ínfima expectativa de vida daqueles ligados ao crime. Acreditam que a polícia é 100% corrupta e que os verdadeiros oprimidos são eles, uma vez que eles não traficam, apenas consomem. Mas no final das contas, nas mãos de bandidos, todo mundo é igual, é estatística, independente de amizade ou negócio.

Em parte do filme, é retratado o treinamento barra pesada do BOPE, que chega a ser surreal, desumano e sobre-humano. A humilhação, o espancamento, o sacrifício e a dor fazem com que os formados nos cursos do BOPE sejam realmente a elite da força policial brasileira. Apenas como referência, no próprio filme, Wagner Moura cita que nem o exército israelense tem soldados como eles; de um total de 100, apenas de 3 a 5 passam no curso.

A câmera nervosa, como se fosse em primeira pessoa, tropeçando e caindo, causa vertigem e desespero, e retrata o cotidiano das invasões de favelas e subidas de morros, o que consegue nos colocar ainda mais no centro dessa troca constante de tiros e ofensas, com transições muito bem feitas com cortes de cena bem planejados.

Os palavrões e insultos pesados são utilizados em praticamente todas as cenas de ação do filme, mas o linguajar e a violência não chegam a ser gratuitos, e sim necessários para que o trabalho seja representativo.

A narração em off com a voz de Wagner Moura, sem sotaques forçados e estravagantes, nem gírias regionalistas, casa perfeitamente com o ritmo do filme, opondo-se à agitação e ao corre-corre com relativa tranquilidade e paciência, explicando ponto a ponto a realidade do BOPE.

O que pode causar espanto e até transformar o filme em cult reside nas frases impactantes proferidas no decorrer da ação. Quando resolve eliminar um traficante, o Capitão Nascimento diz: "Bota na conta do Papa!", quanto tem que eliminar um policial corrupto, que está vendendo armas, que está na mira do atirador de elite: "Então, senta o dedo nessa porra!", e a melhor: "O BOPE não sobe morro para fazer cumprir a lei, sobe morro pra matar bandido".

Filmes sobre bandidos são comuns para todos os lados, vide o currículo do brilhante Quentin Tarantino, com Pulp Fiction, Cães de Aluguel, Kill Bill, entre outros. São considerados cult, mas são extremamente fantasiosos e enaltecem o que a sociedade considera errado, é diversão escapista para algo que todos acham que não pode acontecer conosco.

Totalmente o oposto desses citados, BOPE é um tapa com luvas de pelica na cara dos hipócritas e dos falsos demagogos que fazem discursos mas não agem, como boa parte dos nossos representantes públicos.
Não se pode dizer que o que foi colocado nas telas é verdadeiro ou não, correto ou não, uma vez que quase nenhum de nós pode dar uma opinião com propriedades.
Enquanto Carandiru mostra a opinião dos bandidos, BOPE mostra a opinião da polícia de elite. Quem está certo? Quem sabe algum dia teremos essa resposta.

Nota: 9/10

Felipe Edlinger
29 de setembro de 2007

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

[Paula's MFQ] Gladiator

Maximus: "Imagine where you will be, and it will be so. If you find yourself alone... riding in green fields with the sun on your face... do not be troubled. For you are in Elysium, and you're already dead! Brothers... what we do in life... echoes in eternity."

2000. Russell Crowe in Gladiator
Powered By Blogger