...e assim caminha a humanidade...

"Não tenha medo da perfeição. Você nunca vai atingí-la." (Salvador Dali)
"Et quacumque viam dederit fortuna sequamur." (Virgílio)
"Always think about a coloured tequila sunrise life." (Felipe Edlinger)
"Foda-se a balada, o que importa é a companhia." (Felipe Edlinger)
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quinta-feira, 10 de julho de 2008

[CineBras] Domésticas, O Filme

Dirigido por Fernando Meirelles

Antes de conquistar a glória com Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel, Fernando Meirelles já mostrava seus dons de diretor em um filme muito mais leve e tranquilo do que suas produções mais famosas.

Baseado em uma peça homônima, esta é a segunda colaboração de Fernando Meirelles com Nando Olival, com quem fez o curta-metragem E no meio passa um trem, em 1998. É o resultado de uma pesquisa intensa, com centenas de empregadas domésticas, que durou cerca de dois anos para ser concluída.
Co-escrita por Renata Melo, autora da peça, junto com os próprios diretores, a produção reflete o olhar real dessa classe de trabalhadoras brasileiras e demonstra, com enorme humor, como são os momentos de alegria, tristeza e de amor delas.

Domésticas é um filme engraçado do começo ao fim, mesmo quando as vezes tendencia a parecer um tanto quando preconceituoso. Na verdade, de acordo com os autores, ele apenas retrata a verdade, a qual não é difícil de se imaginar, quando ao menos já se teve contato com essa realidade.

Raimunda, Roxane, Créo, Quitéria e Cida são cinco amigas que ganham a vida como empregadas domésticas. Umas adoram o emprego, outras odeiam. Algumas acreditam que nasceram para fazer o que fazem, enquanto outras sonham todas as noites com dias melhores. Independente das opiniões, levam a vida sempre na descontração e na alegria, sem dar importância para os pequenos problemas do dia-a-dia e, às vezes, para os grandes também.

O filme é uma soma de situações hilárias, intercaladas com monólogos de cada uma das personagens principais, que não chegam a ser nem um pouco chatos e entediantes. Muito pelo contrário, os diálogos também são engraçados e sempre mostram um fundo de verdade.

Despojado e com uma linguagem fácil de ser assimilada, é um mergulho de cabeça em um mundo que, mesmo com os problemas de plantão, pode parecer livre de preocupações. As reflexões são muito bem colocadas, e de maneira que deixa uma gargalhada em cada um que o assiste.

A busca de Raimunda por um marido, de Créo pela filha perdida e de Roxane por uma carreira de modelo é emoldurada por uma coletânea de músicas bregas românticas. Curiosidade dos efeitos sonoros, que foram criados por André Abujamra, apenas com sons de boca e objetos de limpeza, como vassouras, aspiradores e baldes.

O filme foi um trampolim para Graziela Moretto, a engraçada Roxane, que veio a participar de outros filmes, como Cidade de Deus, Viva Voz e o recente O Signo da Cidade, de Carlos Alberto Riccelli, além da participação em várias novelas da Rede Globo. A singela e hilária Olívia Araújo garante bons momentos de risada, junto com a própria Graziela e Cláudia Missura. Já Renata Melo, escritora da peça homônima, e Lena Roque fazem a parte mais dramática da trama. Ainda garantindo o tom humorístico, Robson Nunes e Tiago Moraes cumprem tabela com eficiência.

Uma ótima estréia de Fernando Meirelles em um longa metragem sério de verdade (isso por não considerar Menino Maluquinho 2: A Aventura). E longa vida ao diretor e seu próximo Ensaio Sobre a Cegueira, baseado na obra do prêmio Nobel, José Saramago.

Nota: 7/10

Direção: Fernando Meirelles & Nando Olival
Roteiro: Fernando Meirelles & Nando Olival & Renata Melo
Elenco: Cláudia Missura & Graziela Moretto & Lena Roque & Olívia Araújo & Renata Melo & Robson Nunes & Tiago Moraes
Estréia: Outrubro de 2002
Gênero: Comédia & Drama
Duração: 85 minutos
Distribuidora: O2 Filmes
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por Felipe Edlinger
10 de julho de 2008
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quarta-feira, 9 de julho de 2008

[CineBras] O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias

Dirigido por Cao Hamburger

Todo brasileiro que se preza, gosta de futebol. Todo brasileiro que se preza, ao menos ouviu falar dos terrores da ditadura nas décadas de 60, 70 e 80. E todo brasileiro que se preza, deveria ver este filme.

Cao Hamburger, diretor oriundo da televisão, realizou uma fábula que, com certeza, foi a realidade de vários brasileiros que hoje estão na casa dos 50 anos. Além de dirigir, ainda produziu e escreveu o roteiro, com a ajuda dos novos, porém, experientes Adriana Falcão e Bráulio Mantovani.

Esta é a história de Mauro (Michel Joelsas), um garoto de 12 anos que adora futebol, e que se encontra em uma das mais duras realidades da história do Brasil, o ano de 1970. Ao mesmo tempo que seus pais são perseguidos políticos, ele apenas se preocupa com uma coisa: a seleção brasileira conquistar o tricampeonato mundial de futebol, no México. Quando seus pais fogem de Belo Horizonte por causa da repressão da ditadura, ele é deixado na casa de seu avô, no Bairro do Bom Retiro, lar de italianos e judeus, na capital paulista. E enquanto ele se espera por seus pais, sem saber o que se passa verdadeiramente no país, ele vai se adaptando a sua nova realidade, fazendo amigos e torcendo para o Brasil.

O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias é um filme lento, é verdade, porém, muito sincero e de bom coração. É preciso saber se identificar com o filme porque ele não tem grandes apelos e truques para emocionar o telespectador. Porém, isso acontece eventualmente quando se "descobre" a história.

A ambientação é muito bem feita, até mesmo porque o Bom Retiro, em São Paulo não mudou muito desde a década de 1970. Com um padrão de filmagem gasto, ele se encaixa perfeitamente como um filme de época, que poderia ter sido feito em outra época.

É um misto de temáticas que compõem uma bela obra. Candidato brasileiro ao Oscar de 2006, chegou entre os 9 finalistas, mas ficou de fora da disputa, porém nada que tire os méritos da produção. Uma história de amizades, de confrontos entre gerações, credos e religiões. Uma história de amor em família e, sobretudo, pela pátria de nome Brasil, de várias nações e nacionalidades.

O garoto Michel Joelsas está muito convincente como o sereno e contido Mauro, personagem principal da trama, que encontra no futebol sua distração, enquanto os pais estão de "férias". Seja no campo, na cama, nos botões ou no álbum de figurinhas, o esporte da terra canarinho é sua válvula de escape frente a triste ausência que sente.

O elenco de crianças também garante os bons coadjuvantes, com destaque para a menina Daniela Piepszyk, que tem um olhar estranho e zombeteiro, ao mesmo tempo. Caio Blat, Simone Spoladore e Liliana Castro fazem parte da nova safra de bons atores do país, enquanto Paulo Autran (em uma ponta como o avô de Mauro) e Germano Haiut continuam mostrando que a velha guarda ainda tem muito para dar e mostrar.

Com drama e comédia na medida para um bom programa em família, não é um filme para quem espera grandes efeitos e muita ação. Muito menos para quem quer um filme fácil que deixa as emoções à flor da pele. Como o protagonista, é um filme contido, mas com muito coração. Moldado por uma trilha sonora simples, mas cadenciada e adequada, poderia ter sido a realidade de qualquer um de nossos pais.

Uma poesia de primeira grandeza, que não é óbvia em nenhum momento.

Nota: 8/10

Direção: Cao Hamburger
Roteiro: Cao hamburger & Adriana Falcão & Cláudio Galperin & Bráulio Mantovani & Anna Muylaert
Elenco: Michel Joelsas & Germano Haiut & Paulo Autran & Simone Spoladore & Eduardo Moreira & Caio Blat & Daniela Piepszyk
Estréia: Novembro de 2006
Gênero: Drama
Duração: 104 minutos
Distribuidora: Gullane Filmes
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por Felipe Edlinger
09 de julho de 2008
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sábado, 29 de setembro de 2007

[CineBras] BOPE Tropa de Elite

(BOPE Tropa de Elite)

Directed by José Padilha

Antes de mais nada, eu gostaria de pedir desculpas pelas minhas palavras e pelo meu linguajar mas, puta que pariu, esse filme é do caralho!

O mais recente trabalho do diretor José Padilha, responsável por Ônibus 174 (2002), é um excelente exemplo de cinema moderno, sem deixar de lado o cunho social. Ainda mais contundente do que Cidade de Deus e Carandiru, este Tropa de Elite retrata a realidade de uma parte da sociedade que não queremos ver, a polícia brasileira.

José Padilha conta a saga do Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, líder e comandante de uma das tropas do BOPE, o Batalhão de Operações Policiais Especiais. Nascimento, apaixonado, fiel e dedicado a profissão, se encontra no meio de um conflito pessoal entre ser pai, ver o filho nascer e crescer ou continuar no BOPE, enfrentando a dureza e a incerteza do cotidiano no comando da tropa. Decidido a abandonar o comando, ele agora precisa indicar um substituto para a sua função, que reside na escolha de Neto (Caio Junqueira), que sempre teve o desejo de ser policial, tem sangue fervendo nas veias e a mente focada no exercício brutal de todas as horas, ou de Matias (André Ramiro), que estuda advocacia e sempre procura raciocinar antes de agir. A dificuldade se encontra em quem seria um melhor comandante, o coração de Neto ou a cabeça de Matias.

O pano de fundo da trama mostra o planejamento do BOPE para garantir a segurança do Papa João Paulo II que, durante visita ao Rio de Janeiro, faz questão de dormir em uma favela. O Capitão Nascimento contraria as decisões dos superiores, mas respeita a hierarquia da força policial, desde que essas não conflitam com sua filosofia profissional pessoal.

Aliás, Wagner Moura também é f***. Um dos grandes destaques do cinema nacional, junto com o conterrâneo Lázaro Ramos, ele é a alma do filme com seu líder de tropa. Apesar de ter interpretado um ou dois personagens estereotipados no passado, aqui ele literalmente arrebenta. Ele não demonstra perdão, mete porrada, esculacha, dá tiro na cara e não pensa duas vezes, e nas poucas vezes que isso acontece, o coração fala mais alto.
O personagem dele tem filosofias fortes, afinal, afirma que quem coopera com bandido é cúmplice de bandido, independente das condições e situações, inclusive relacionado a colegas de profissão; pra ele, policial corrupto não tem vez. Pessoalmente, acredito que devam existir exceções, mas isso depende do ponto de vista e repertório de cada um.

Nascimento enfrenta a barra pesada das decisões do dia a dia, tendo que manter a mente forte e o coração frio, o que pode influenciar sua vida pessoal e familiar. O peso da responsabilidade e a ineficiência do próprio sistema, com seus olhos cegos (ou que não querem ver), reflete em doses cavalares de remédios tranquilizantes e culmina no maltrato da própria esposa em "defesa" dos seus liderados.

Realmente, é uma luta complicada e, quase sempre, desonesta. Ainda mais quando vivemos no meio de uma Guerra Civil, que somente as autoridades não querem admitir, e as tropas precisam estar sempre nas ruas para resolver os "problemas", quase sempre de maneira pouco ortodoxa. Como dito, corrupção não tem vez.

Mas não é apenas de maus elementos que o filme fala; na verdade, a dita bandidagem é somente um elemento coadjuvante do longa metragem, os verdadeiros acusados são os que estão a favor da lei e fazem de tudo para se dar bem, mesmo que seja colaborar com o outro lado.
Porém, as justificativas são inúmeras, mas quando começam os subornos e as corrupções, a história não tem fim aparente. Começa em casa, na escola, na vida, na faculdade, no trabalho. O engraçado é que as consequências são medidas apenas no final, quando o ajuste de contas parece chegar mais perto.

A podridão e os esquemas utilizados dentro das nossas forças policiais, por muitos nem imaginados, é exposto tão cruamente que faz nascer em qualquer ser humano o sentimento de raiva, ódio e descontentamento com as impunidades. As hierarquias opressoras das instituições públicas, baseadas no poder, talvez resquício dos pensamentos militares que populam o âmago dos nossos centros públicos, revoltam a todos pelo simples fato de revogar os direitos humanos. Apenas para citar alguns exemplos, são agendamentos de férias feitos mediante suborno, coleta de dinheiro de traficantes, deslocamento e eliminação de policiais honestos, desova de corpos em lugares diferentes (por policiais) para diminuir o índice de homicídios na região dos Departamentos de Polícia, entre outros.

Mas bandidagem só existe porque há corrupção e vice-versa. O problema é muito mais embaixo do que pensamos e vemos nas mídias espalhadas pelo país a fora. E vale lembrar que a grande maioria dos moradores de favelas são pessoas comuns e honestas que, sem oportunidades melhores na vida, vêm nessas comunidades a única chance de sobrevivência com um mínimo de dignidade.

O problema é do Estado e, aparentemente, o Estado e nossos líderes políticos não fazem nada para resolvê-lo. A educação é uma possível solução para oprimir a miséria, o tráfico, os roubos e outros delitos cometidos pelos menos favorecidos, expressão em moda hoje em dia. A verdade é que policias não seriam corruptos se não ganhassem miséria, tendo que fazer serviços ilícitos por fora para garantir o próprio sustento. É claro que também existe a ganância, mas ela não é um fator determinante. A ganância não influencia milhões a roubarem 10 reais, mas 10 a roubarem milhões.

E ainda existe a impunidade das classes média e alta, expressa sem nenhum pudor durante toda a história. Os jovens com dinheiro que fomentam o tráfico de drogas, com os beseados e "tiros" de final de semana, são colocados como os grandes responsáveis pelo sustento dos traficante, pela morte de criança e adolescentes, e pela ínfima expectativa de vida daqueles ligados ao crime. Acreditam que a polícia é 100% corrupta e que os verdadeiros oprimidos são eles, uma vez que eles não traficam, apenas consomem. Mas no final das contas, nas mãos de bandidos, todo mundo é igual, é estatística, independente de amizade ou negócio.

Em parte do filme, é retratado o treinamento barra pesada do BOPE, que chega a ser surreal, desumano e sobre-humano. A humilhação, o espancamento, o sacrifício e a dor fazem com que os formados nos cursos do BOPE sejam realmente a elite da força policial brasileira. Apenas como referência, no próprio filme, Wagner Moura cita que nem o exército israelense tem soldados como eles; de um total de 100, apenas de 3 a 5 passam no curso.

A câmera nervosa, como se fosse em primeira pessoa, tropeçando e caindo, causa vertigem e desespero, e retrata o cotidiano das invasões de favelas e subidas de morros, o que consegue nos colocar ainda mais no centro dessa troca constante de tiros e ofensas, com transições muito bem feitas com cortes de cena bem planejados.

Os palavrões e insultos pesados são utilizados em praticamente todas as cenas de ação do filme, mas o linguajar e a violência não chegam a ser gratuitos, e sim necessários para que o trabalho seja representativo.

A narração em off com a voz de Wagner Moura, sem sotaques forçados e estravagantes, nem gírias regionalistas, casa perfeitamente com o ritmo do filme, opondo-se à agitação e ao corre-corre com relativa tranquilidade e paciência, explicando ponto a ponto a realidade do BOPE.

O que pode causar espanto e até transformar o filme em cult reside nas frases impactantes proferidas no decorrer da ação. Quando resolve eliminar um traficante, o Capitão Nascimento diz: "Bota na conta do Papa!", quanto tem que eliminar um policial corrupto, que está vendendo armas, que está na mira do atirador de elite: "Então, senta o dedo nessa porra!", e a melhor: "O BOPE não sobe morro para fazer cumprir a lei, sobe morro pra matar bandido".

Filmes sobre bandidos são comuns para todos os lados, vide o currículo do brilhante Quentin Tarantino, com Pulp Fiction, Cães de Aluguel, Kill Bill, entre outros. São considerados cult, mas são extremamente fantasiosos e enaltecem o que a sociedade considera errado, é diversão escapista para algo que todos acham que não pode acontecer conosco.

Totalmente o oposto desses citados, BOPE é um tapa com luvas de pelica na cara dos hipócritas e dos falsos demagogos que fazem discursos mas não agem, como boa parte dos nossos representantes públicos.
Não se pode dizer que o que foi colocado nas telas é verdadeiro ou não, correto ou não, uma vez que quase nenhum de nós pode dar uma opinião com propriedades.
Enquanto Carandiru mostra a opinião dos bandidos, BOPE mostra a opinião da polícia de elite. Quem está certo? Quem sabe algum dia teremos essa resposta.

Nota: 9/10

Felipe Edlinger
29 de setembro de 2007
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