...e assim caminha a humanidade...

"Não tenha medo da perfeição. Você nunca vai atingí-la." (Salvador Dali)
"Et quacumque viam dederit fortuna sequamur." (Virgílio)
"Always think about a coloured tequila sunrise life." (Felipe Edlinger)
"Foda-se a balada, o que importa é a companhia." (Felipe Edlinger)
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domingo, 30 de setembro de 2007

[MovRev] O Guia do Mochileiro das Galáxias

(Hitchhiker's Guide to the Galaxy)

Directed by Garth Jennins

Douglas Adams é um dos escritores mais brilhantes de todos os tempos. Seu estilo escrachado e non-sense, e ainda melhor, ácido, irônico e sarcástico, conquistou gerações de leitores e vendeu mais de 15 milhões de cópias de seus livros ao redor de todo o mundo. E continua encantando muita gente, mesmo com a morte precoce do escritor, aos 49 anos, em 2001.

Enquanto a série Guerra nas Estrelas acumula uma legião de fãs considerados nerds, a série O Guia do Mochileiro das Galáxias incorporou um certo ar cult, até porque ela é muito menos conhecida do que a dos sabres de luz e cavaleiros Jedis.

O humor é tão absurdo que fica claro que nem o próprio autor não a levava muito a sério, tanto que a inspiração para escrevê-la veio quando, segundo o próprio Adams, ele estava bêbado em algum lugar de Innsbruck, na Áustria.
Porém, é um humor inteligente e afiado, típico das novelas inglesas.

Não são todos que se identificam com O Guia do Mochileiro, ou ao menos passam das 50 primeiras páginas, tamanhos são os pontos de interrogação que pairam sobre a cabeça de quem o tenta ler. O caráter imaginativo/ criativo de Adams precisa se fazer entender primeiro para depois ser compreendido.

O mesmo ocorre com as versões multimídia do livro, seja a versão original para rádio, de 1977, ou a versão podreira para a rede de TV BBC, de 1981, ou ainda esta versão mais recente para cinemas.

O filme conta a história de Arthur Dent (Martin Freeman), inglês sossegado que tem a casa demolida, e seu amigo Ford Prefect (Mos Def), um alienígena disfarçado de ator desempregado que fazia pesquisa na Terra para o tal O Guia do Mochileiro das Galáxias, em uma jornada pelo universo em busca do planeta Mangrathea, a bordo da nave Coração de Ouro.

Parece confuso? Sim, parece, e até é. Isso sem mencionar o fator de improbabilidade da nave Coração de Ouro, o super computador Pensador Profundo, o presidente da galáxia Zaphod Beeblebrox, o peixe tradutor Babel, os terríveis e idiotas Vogons, a bebida Dinamite Pangaláctica, o robô pessimista Marvin, entre outras loucuras mochileiras.
O segredo é esperar de tudo e nunca levar nada a sério, caso contrário você é um sério candidato a achar o filme um lixo universal.

Os cenários são bacanas e bem elaborados, principalmente se levarmos em consideração a mente doentia de Douglas Adams; são planetas, personagens e situações totalmente diferentes do que uma mente comum - e sã - pode elaborar.

Os personagens, então, são fascinantes, interpretados por bons e conhecidos atores, como o próprio Martin Freeman, da série The Office, que interpreta o deslocado inglês Arthur Dent. Além dele, há o rapper Mos Def, que faz o papel do alienígena Ford Prefect, Sam Rockwell como Zaphod Beeblebrox, o inacreditável presidente da galáxia, Bill Nighy, John Malkovich, Stephen Fry (narrador da história), Alan Rickman, a voz do entediado robô Marvin, e a gracinha Zooey Deschanel, que interepreta Trilliam, paixão de Arthur.

Porém, para quem não leu o livro, existe uma grande possibilidade de não conseguir entender nadinha da silva; como já disse, a história é confusa, não pela trama ser um emaranhado de informações, mas pelo fato das informações em si serem quase inconcebíveis. Por outro lado, para quem já leu o livro (ou os livros), é fácil notar que muitas coisas foram modificadas para a versão cinematográfica, não necessariamente para o bem da obra, na opinião dos fãs.

Infelizmente, o filme não foi muito bem nas bilheterias, o que já era até de se esperar por ser a) uma comédia britânica e b) baseado em um livro de Douglas Adams. É uma pena porque os outros livros da trilogia de cinco são tão bons quanto o primeiro.

Para quem ficou curioso ou assistiu o filme e realmente ficou interessado pela obra de Adams, sugiro a leitura de todos os livros, começando, é claro, por O Guia do Mochileiro das Galáxias. Se, depois das quase 200 páginas de humor non-sense do primeiro livro, você ainda estiver entusiasmado, passe para 2) O Restaurante no Fim do Universo, 3) A Vida, o Universo e Tudo Mais, 4) Até Mais e Obrigado pelos Peixes; e 5) Praticamente Inofensiva (livro alternativo considerado a quinta parte da trilogia - sim, Adams se referia a sua obra dessa maneira... trilogia).

E para quem tem alguma dúvida sobre o refinamento do humor de Dougla Adams, aqui vai uma pequena dose: "É um fato importante e conhecido que as coisas nem sempre são o que parecem. Por exemplo, no planeta Terra, os homens sempre se consideraram a espécie mais inteligente a habitar o planeta, e não a terceira mais inteligente. A segunda era, é claro, os golfinhos que, curiosamente, há muito sabiam da iminente destruição do planeta. Eles tentaram alertar a humanidade, mas seu modo de comunicação era interpretado como gestos lúdicos. Então, eles decidiram abandonar a Terra por conta própria. Sua última mensagem foi entendida como uma sofisticada tentativa de dar uma cambalhota dupla para trás assobiando o hino dos EUA. Mas, na verdade, o significado era: 'Adeus, e obrigado por todos os peixes".

Incrível, certo? Agora, quer saber qual é a espécie mais inteligente do planeta Terra? Sugiro que leia o livro, ou assistia ao filme.

Nota: 6.5/10

Felipe Edlinger
30 de setembro de 2007

sábado, 29 de setembro de 2007

[CineBras] BOPE Tropa de Elite

(BOPE Tropa de Elite)

Directed by José Padilha

Antes de mais nada, eu gostaria de pedir desculpas pelas minhas palavras e pelo meu linguajar mas, puta que pariu, esse filme é do caralho!

O mais recente trabalho do diretor José Padilha, responsável por Ônibus 174 (2002), é um excelente exemplo de cinema moderno, sem deixar de lado o cunho social. Ainda mais contundente do que Cidade de Deus e Carandiru, este Tropa de Elite retrata a realidade de uma parte da sociedade que não queremos ver, a polícia brasileira.

José Padilha conta a saga do Capitão Nascimento, interpretado por Wagner Moura, líder e comandante de uma das tropas do BOPE, o Batalhão de Operações Policiais Especiais. Nascimento, apaixonado, fiel e dedicado a profissão, se encontra no meio de um conflito pessoal entre ser pai, ver o filho nascer e crescer ou continuar no BOPE, enfrentando a dureza e a incerteza do cotidiano no comando da tropa. Decidido a abandonar o comando, ele agora precisa indicar um substituto para a sua função, que reside na escolha de Neto (Caio Junqueira), que sempre teve o desejo de ser policial, tem sangue fervendo nas veias e a mente focada no exercício brutal de todas as horas, ou de Matias (André Ramiro), que estuda advocacia e sempre procura raciocinar antes de agir. A dificuldade se encontra em quem seria um melhor comandante, o coração de Neto ou a cabeça de Matias.

O pano de fundo da trama mostra o planejamento do BOPE para garantir a segurança do Papa João Paulo II que, durante visita ao Rio de Janeiro, faz questão de dormir em uma favela. O Capitão Nascimento contraria as decisões dos superiores, mas respeita a hierarquia da força policial, desde que essas não conflitam com sua filosofia profissional pessoal.

Aliás, Wagner Moura também é f***. Um dos grandes destaques do cinema nacional, junto com o conterrâneo Lázaro Ramos, ele é a alma do filme com seu líder de tropa. Apesar de ter interpretado um ou dois personagens estereotipados no passado, aqui ele literalmente arrebenta. Ele não demonstra perdão, mete porrada, esculacha, dá tiro na cara e não pensa duas vezes, e nas poucas vezes que isso acontece, o coração fala mais alto.
O personagem dele tem filosofias fortes, afinal, afirma que quem coopera com bandido é cúmplice de bandido, independente das condições e situações, inclusive relacionado a colegas de profissão; pra ele, policial corrupto não tem vez. Pessoalmente, acredito que devam existir exceções, mas isso depende do ponto de vista e repertório de cada um.

Nascimento enfrenta a barra pesada das decisões do dia a dia, tendo que manter a mente forte e o coração frio, o que pode influenciar sua vida pessoal e familiar. O peso da responsabilidade e a ineficiência do próprio sistema, com seus olhos cegos (ou que não querem ver), reflete em doses cavalares de remédios tranquilizantes e culmina no maltrato da própria esposa em "defesa" dos seus liderados.

Realmente, é uma luta complicada e, quase sempre, desonesta. Ainda mais quando vivemos no meio de uma Guerra Civil, que somente as autoridades não querem admitir, e as tropas precisam estar sempre nas ruas para resolver os "problemas", quase sempre de maneira pouco ortodoxa. Como dito, corrupção não tem vez.

Mas não é apenas de maus elementos que o filme fala; na verdade, a dita bandidagem é somente um elemento coadjuvante do longa metragem, os verdadeiros acusados são os que estão a favor da lei e fazem de tudo para se dar bem, mesmo que seja colaborar com o outro lado.
Porém, as justificativas são inúmeras, mas quando começam os subornos e as corrupções, a história não tem fim aparente. Começa em casa, na escola, na vida, na faculdade, no trabalho. O engraçado é que as consequências são medidas apenas no final, quando o ajuste de contas parece chegar mais perto.

A podridão e os esquemas utilizados dentro das nossas forças policiais, por muitos nem imaginados, é exposto tão cruamente que faz nascer em qualquer ser humano o sentimento de raiva, ódio e descontentamento com as impunidades. As hierarquias opressoras das instituições públicas, baseadas no poder, talvez resquício dos pensamentos militares que populam o âmago dos nossos centros públicos, revoltam a todos pelo simples fato de revogar os direitos humanos. Apenas para citar alguns exemplos, são agendamentos de férias feitos mediante suborno, coleta de dinheiro de traficantes, deslocamento e eliminação de policiais honestos, desova de corpos em lugares diferentes (por policiais) para diminuir o índice de homicídios na região dos Departamentos de Polícia, entre outros.

Mas bandidagem só existe porque há corrupção e vice-versa. O problema é muito mais embaixo do que pensamos e vemos nas mídias espalhadas pelo país a fora. E vale lembrar que a grande maioria dos moradores de favelas são pessoas comuns e honestas que, sem oportunidades melhores na vida, vêm nessas comunidades a única chance de sobrevivência com um mínimo de dignidade.

O problema é do Estado e, aparentemente, o Estado e nossos líderes políticos não fazem nada para resolvê-lo. A educação é uma possível solução para oprimir a miséria, o tráfico, os roubos e outros delitos cometidos pelos menos favorecidos, expressão em moda hoje em dia. A verdade é que policias não seriam corruptos se não ganhassem miséria, tendo que fazer serviços ilícitos por fora para garantir o próprio sustento. É claro que também existe a ganância, mas ela não é um fator determinante. A ganância não influencia milhões a roubarem 10 reais, mas 10 a roubarem milhões.

E ainda existe a impunidade das classes média e alta, expressa sem nenhum pudor durante toda a história. Os jovens com dinheiro que fomentam o tráfico de drogas, com os beseados e "tiros" de final de semana, são colocados como os grandes responsáveis pelo sustento dos traficante, pela morte de criança e adolescentes, e pela ínfima expectativa de vida daqueles ligados ao crime. Acreditam que a polícia é 100% corrupta e que os verdadeiros oprimidos são eles, uma vez que eles não traficam, apenas consomem. Mas no final das contas, nas mãos de bandidos, todo mundo é igual, é estatística, independente de amizade ou negócio.

Em parte do filme, é retratado o treinamento barra pesada do BOPE, que chega a ser surreal, desumano e sobre-humano. A humilhação, o espancamento, o sacrifício e a dor fazem com que os formados nos cursos do BOPE sejam realmente a elite da força policial brasileira. Apenas como referência, no próprio filme, Wagner Moura cita que nem o exército israelense tem soldados como eles; de um total de 100, apenas de 3 a 5 passam no curso.

A câmera nervosa, como se fosse em primeira pessoa, tropeçando e caindo, causa vertigem e desespero, e retrata o cotidiano das invasões de favelas e subidas de morros, o que consegue nos colocar ainda mais no centro dessa troca constante de tiros e ofensas, com transições muito bem feitas com cortes de cena bem planejados.

Os palavrões e insultos pesados são utilizados em praticamente todas as cenas de ação do filme, mas o linguajar e a violência não chegam a ser gratuitos, e sim necessários para que o trabalho seja representativo.

A narração em off com a voz de Wagner Moura, sem sotaques forçados e estravagantes, nem gírias regionalistas, casa perfeitamente com o ritmo do filme, opondo-se à agitação e ao corre-corre com relativa tranquilidade e paciência, explicando ponto a ponto a realidade do BOPE.

O que pode causar espanto e até transformar o filme em cult reside nas frases impactantes proferidas no decorrer da ação. Quando resolve eliminar um traficante, o Capitão Nascimento diz: "Bota na conta do Papa!", quanto tem que eliminar um policial corrupto, que está vendendo armas, que está na mira do atirador de elite: "Então, senta o dedo nessa porra!", e a melhor: "O BOPE não sobe morro para fazer cumprir a lei, sobe morro pra matar bandido".

Filmes sobre bandidos são comuns para todos os lados, vide o currículo do brilhante Quentin Tarantino, com Pulp Fiction, Cães de Aluguel, Kill Bill, entre outros. São considerados cult, mas são extremamente fantasiosos e enaltecem o que a sociedade considera errado, é diversão escapista para algo que todos acham que não pode acontecer conosco.

Totalmente o oposto desses citados, BOPE é um tapa com luvas de pelica na cara dos hipócritas e dos falsos demagogos que fazem discursos mas não agem, como boa parte dos nossos representantes públicos.
Não se pode dizer que o que foi colocado nas telas é verdadeiro ou não, correto ou não, uma vez que quase nenhum de nós pode dar uma opinião com propriedades.
Enquanto Carandiru mostra a opinião dos bandidos, BOPE mostra a opinião da polícia de elite. Quem está certo? Quem sabe algum dia teremos essa resposta.

Nota: 9/10

Felipe Edlinger
29 de setembro de 2007

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

[Paula's MFQ] Gladiator

Maximus: "Imagine where you will be, and it will be so. If you find yourself alone... riding in green fields with the sun on your face... do not be troubled. For you are in Elysium, and you're already dead! Brothers... what we do in life... echoes in eternity."

2000. Russell Crowe in Gladiator

terça-feira, 25 de setembro de 2007

[MovRev] The Wonders - O Sonho Não Acabou

(That Thing You Do!)

Directed by Tom Hanks

Definitivamente, Tom Hanks é um cara que entende do riscado. Além de ser um dos maiores atores de todos os tempos, uma das caras mais conhecidas do cinema, um dos mais bem remunerados profissionais do mercado, o cara que emplacou mais filmes que renderam mais de 100 milhões de dólares na história, entre outros predicados, ele ainda consegue a façanha de escrever e dirigir esta comédia simpaticíssima sobre uma banda de Rock 'n' Roll que atinge o estrelato da noite para o dia.

A direção de Hanks é muito certeira, com um roteiro simples mas muito bem amarrado para sua primeira incursão nesta ceara. Ele consegue levar o trabalho com maestria, alternando bons momentos de diversão e musicalidade com alguns jovens talentos que hoje fazem produções mais grandiosas, como Tom Everett Scott, Liv Tyler, Steve Zahn, Charlize Theron e Giovanni Ribisi.

Como já comentado, o filme gira em torno de uma banda de Rock 'n' Roll formada por quatro amigos de colégio e o sucesso meteórico do hit That Thing You Do!, primeiro em concursos e restaurantes, depois na rádio local e, finalmente, nas paradas de sucesso do país todo. Inclusive, a música tema foi indicada ao Oscar de Melhor Canção Original de 1997.

Na verdade, toda a trilha sonora é ótima e casa muito bem com a caracterização dos anos 60, com um clima alegre e, ao mesmo tempo, saudosista. A presença de algumas músicas caracterizando a época ajuda ainda mais na sonoridade do filme, como Diane Dane, Freddy Fredrickson e The Chantrellines.

O sonho de qualquer criança e adolescente é bem traduzido pelo deleite dos quatro garotos com o sucesso, a repercussão do trabalho, sem mencionar a esteria e assédio das tietes em qualquer lugar que a banda toca, algo que lembra o saudoso Febre de Juventude, que contava a história de um grupo de fãs que fazia de tudo para chegar perto dos Beatles.

Porém, todo cometa ascende rápido e se apaga da mesma maneira, e o filme retrata o que, normalmente, faz desmoronar as bandas que começam a fazer sucesso: mulheres, egos, diversão descontrolada, deslumbre, focos em outros assuntos. Somente uma ou duas pessoas realmente interessadas em fazer música pelo simples prazer de tocar acabam não segurando a onda.

Aliás, é impossível não se identificar com o baterista Guy "Shades" Petterson (Everett Scott), que apenas se encontra na turnê pelo deleite de poder continuar tocando bateria. Talentoso e apaixonado pelo que faz, ele não liga a mínima para o sucesso, mas sim para a oportunidade de poder fazer o que sabe, e gosta.

Há também a namoradinha que todos nós queríamos ter, Faye Dolan, interpretada por Liv Tyler, maravilhosa como sempre e mais bela do que nunca. Ela, na verdade é a dedicada namorada de Jimmy Mattingly, o arrogante e ambicioso vocalista da banda, que apenas se importa pelo sucesso próprio. Ingênua e delicada, torcemos para que ela fique com Guy desde o começo do filme, uma vez que a química entre eles é muito mais forte do que entre ela e Jimmy.

Algumas cenas são por demais empolgantes, que nos deixam com um sorriso maroto no rosto, como a primeira vez em que That Thing You Do! toca na rádio local ou, então, quando Guy vai a um bar e escuta atentamente - e bêbado - o jazz de Del Paxton. O momento em que ele toca com Paxton, seu ídolo de infância, no final do filme, chega a ser contagiante.

Os veteranos também contribuem para a boa lista de personagens bacanas, como Bill Cobbs, que interpreta Del Paxton, Obba Babatundé (o Lando, de Guerra nas Estrelas) como o afável Lamarr, porteiro do hotel onde a banda fica em Hollywood, Rita Wilson, a garçonete Marguerite, e até Tom Hanks como o produtor musical Mr. White, mesmo apenas cumprindo tabela, não decepciona e cumpre sua parte. Para os curiosos, o cantor Chris Isaak faz uma ponta como Tio Bob, que grava o primeiro single dos Wonders em uma igreja.

Se você sentir vontade de tocar bateria ou guitarra depois de assistir o filme, não fique com vergonha. Muito menos se sentir necessidade de levantar do sofá e dançar ao som de That Thing You Do!

Nota: 7/10

Felipe Edlinger
25 de setembro de 2007

[MovRev] O Aprendiz

(Apt Pupil)

Directed by Bryan Singer

Este O Aprendiz é um filme que precisa ser descoberto. Mesmo sendo dirigido por um dos queridinhos atuais de Hollywood, Bryan Singer (Os Suspeitos, X-Men, Superman O Retorno), não acredito que faça parte do conhecimento do grande público.

A história começa com o interesse de um estudante exemplar, Todd Bowden (Brad Renfro), com as atrocidades feitas pela Alemanha nas duas Grandes Guerras do nosso século. Todd descobre Kurt Dussander (Sir Ian McKellen), um velhinho, aparentemente inofensivo, que havia sido um oficial do Terceio Reich. Aos poucos o interesse vira obsessão e muda drasticamente a curiosidade e a visão do garoto de 16 anos. A questão que fica, é até quando ele consegue suportar as consequências dessas mudanças.

O filme não apresenta nada de novo ou mirabolante, mas o roteiro bem azeitado nos mostra os terrores do holocausto, sem ser óbvio, sempre com base nas perguntas do garoto e nos relatos do antigo oficial. Em alguns pontos, a história chega a incomodar (o que seria mais do que normal), mesmo sem ser muito direta.

Mais do que os efeitos e consequências dos atos dos comandados de Adolph Hitler, o relacionamento entre Todd e Kurt traduz muito bem o quão flexível, influenciável e curiosa é a mente humana. É fácil curiosidade se transformar em obsessão, e obsessão em loucura; o grande problema é conseguir fazer o processo inverso. Às vezes, o caminho parece se tornar um beco sem saída e é aí que o desespero toma conta da sanidade.

Sir Ian McKellen, magnífico como sempre, trava uma boa batalha com Renfro, surpreendentemente eficiente como o curioso estudante. Porém, enquanto Renfro apenas faz o seu papel, o show é todo de McKellen, tanto pela qualidade e capacidade de sua interpretação, quanto pela densidade e intensidade de seu personagem. É impressionante como ele se transforma do velhinho inocente no diabo de Guerra em pessoa, e nos convence de que ele é realmente assim (mesmo não sendo, é claro).

O tom sinistro do filme acompanha a transformação dos dois personagens principais, ambos faces do mal: a recaída de Kurt Dussander às sombras de seu passado e a assenção de Todd Bowden como discípulo involuntário do alemão. Se você espera redenção em algum momento da trama, esqueça, isso é algo que não estava nos planos do diretor.

Infelizmente, para os puristas e fãs de Stephen King, o filme não pode ser comparado com o livro homônimo, o que é extremamente compreensível e, também, disonesto. O livro é muito mais denso do que o longa metragem, assim como todas as outras obras de King adaptadas para as telas, com uma exceção ou duas. Mesmo assim, o longa não perde seus méritos.

Talvez, a única coisa não adequada tenha sido a escalação de David Schwimmer, como Edward French, conselheiro estudantil que tenta motivar Todd a recuperar suas notas na escola. Mesmo apresentando uma atuação diferente de tudo o que ele já mostrou, Ross Geller já faz parte do DNA de Schwimmer e, também, dos fãs da série de comédia mais bem sucedida de todos os tempos, Friends.

Nota: 7.5/10

Felipe Edlinger
25 de setembro de 2007

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

[MovRev] A Última Legião

(The Last Legion)

Directed by Doug Lefler

Não se deixe levar pelo sub-título brasileiro do filme, "O Nascimento da Lenda de Rei Arthur". Arthur nem ao menos é mencionado até os últimos 2 minutos do filme. Portanto, não crie expectativas em ver uma história comum à lenda do Rei da távola redonda.

Porém, isso não compromete em nada este filme épico simpático e despretensioso que, convenhamos, não pode nem de longe ser comparado a outros grandes do gênero.

Vemos a capital do Império Romano ser atacada e dominada pelos Gauleses, enquanto o pequeno César (o garoto Thomas Sangster) é enclausurado na Ilha de Capri, junto com seu tutor (e feiticeiro) Ambrosinus, interpretado por Sir Ben Kingsley. O comandante da guarda pessoal do Imperador, Aurelius (colin Firth) vai em seu resgate e tem como meta levá-lo para a nona legião, localizada na Britania, a última que não declinou perante o poder dos conquistadores e que ainda é fiel ao Império.

Os cenários e a fotografia são belíssimos, caracterizando com eficiência a Roma antiga e as terras distantes da Britania. Novamente, nada que chegue perto das mega produções, mas ainda assim é interessante. Em alguns casos até nos remete a O Senhor dos Anéis com suas paisagens esplendorosas, só que aqui filmadas na Eslováquia.

As cenas de batalhas são bem feitas, porém sem muitas coreografias elaboradas. Os apaixonados por embates gigantescos podem se decepcionar um pouco porque as lutas não são tão violentas como normalmente são apresentadas, mas os cortes de câmera frequentes e rápido ajudam a torná-las ágeis e empolgantes.

Colin Firth se empenha em interpretar o comandante Aurelius mas não consegue ser glamouroso como um certo Neo-Zelandês que interpretou um verdadeiro Gladiador, Russell Crowe. Talvez, esta nem tenha sido a intenção, uma vez que Firth intercala momentos sérios com tentativas de humor.

Uma razão para conferir o filme, mesmo com todos os poréns, é a presença da deslumbrante Aishwarya Rai, uma das maiores estrelas do cinema Indiano, que estrelou, inclusive, o engraçado Dhoom 2, filmado no Brasil. A ela cabem as melhores cenas de luta e até alguns momentos mais sensuais, com direito a roupa molhada e foco nos, digamos, atributos da moça.
Isso me faz perguntar o porquê do rebuliço causado pelo "incidente internacional" quando Richard Gere agarrou Shilpa Shetty (atriz indiana) durante um evento de conscientização sobre a Aids, na Índia.

Se no meio do filme, alguém ficar cismado com a história da espada de Julio César, já posso adiantar que sim, estamos falando da mesma Excalibur das outras aventuras do Rei Arthur.

Nota: 5.5/10

Felipe Edlinger
24 de setembro de 2007

[MovRev] Embriagado de Amor

(Punch Drunk Love)

Directed by P. T. Anderson

Antes de mais nada, sou fã de carteirinha do trabalho de Adam Sandler. Primeiro porque gosto de comédias idiotas, piadas insossas e personagens estabanados, segundo porque ele é um cara que me faz rir. E este é o estereótipo do trabalho dele, quer queira ou não, em todos seus filmes temos variâncias do mesmo tema.

Confesso que, quando vi este Embriago de Amor pela primeira vez, meu único comentário foi: "Não pode ser um filme do Adam Sandler". Então, resolvi ver o filme de novo. E a impressão continuou sendo a mesma.
Enquanto eu esperava pelo mesmo prato de sempre, com o qual normalmente me fartava, acabei ganhando um banquete com variedade muito maior de quitutes.

Paul Thomas Anderson, que tem excelentes filmes no currículo, como Boogie Nights e Magnolia, consegue arrancar de Sandler a melhor interpretação de sua vida, talvez a única que justifique algum dia chamá-lo de ator. E ele corresponde a altura com a trama tudo-de-errado-acontece-comigo-pelo-amor-de-deus-será-que-nunca-vou-me-dar-bem-na-vida.

Barry Egan (Adam Sandler) é um cara inseguro e desequilibrado que dirige o próprio negócio, é oprimido pela família de sete irmãs, e sempre comete erros consideráveis, independente da situação. Ele não acredita em ter um relacionamento sério e vê sua vida mudar quando se apaixona por Lena (Emily Watson). Mesmo com um histórico que vai contra suas novas emoções, como êxtase, paixão e luxúria, ele resolve cair de cabeça nesse mar totalmente desconhecido paor ele.

O ar estéril do filme, com efeitos sonoros repetitivos, iluminação estourada e música perturbante dá um toque kubrickiano a película, causando uma mistura de sensações no telespectador que vão de "vou desligar o filme agora" a "o que vem agora, estou intrigado demais".

Adam Sandler está ótimo fazendo-se de bobo novamente mas, agora, mostrando toda a raiva contida em seu interior. As cenas em que ele tem seus acessos incontroláveis são um achado, uma vez que esperamos algo totalmente diferente. Afinal de contas, estamos falando de Adam Sandler aqui. A cena da reunião de família e do acidente de carro são ótimas!

Mesmo com todas as esquisitices dos personagens, ainda há espaço para o romance entre Barry Egan e Lena Leonard, um tanto quando sem jeito, deslocado, mas honesto e redentor.

Luís Guzmán e Philp Seymour Hoffman fazem pontas de luxo para adicionar mais tempero na vida atrapalhada e sem graça de Sandler, resultando em equilíbrio entre momentos pseudo-engraçados e momentos em que os nervos se encontram à flor da pele.

No final, podemos não ter nenhuma chuva de sapos ou reviravolta mirabolante na trama, mas a história não precisa disso. O próprio filme é uma antítese às nossas expectativas.

Se para cada dez O Maluco do Golfe, tivéssemos um Embriagado de Amor, eu seria um dos primeiros a incentivar a produção de mais filmes de Sandler; um porque gosto das caretas dele, outro porque passei a gostar ainda mais quando ele tenta ser um ator de verdade.

Nota: 8/10

Felipe Edlinger
24 de setembro de 2007

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