...e assim caminha a humanidade...

"Não tenha medo da perfeição. Você nunca vai atingí-la." (Salvador Dali)
"Et quacumque viam dederit fortuna sequamur." (Virgílio)
"Always think about a coloured tequila sunrise life." (Felipe Edlinger)
"Foda-se a balada, o que importa é a companhia." (Felipe Edlinger)
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sexta-feira, 21 de setembro de 2007

[MovRev] O Grande Lebowski

(The Big Lebowski)

Directed by Joel Coen

Os irmãos Coen são especialistas em trazer para as telas tramas tão absurdas e non-sense - e cheias de humor negro - que, às vezes, o grande público não simpatiza com suas histórias ou seus personagens.

Felizmente, ainda existem algumas pessoas que admiram e adoram os filmes esdrúxulos e fantásticos que eles produzem, como este O Grande Lebowski, Fargo, Barton Fink ou Na Roda da Fortuna. Eles estão longe de ser filmes alternativos, mas definitivamente não fazem parte do cinemão pipoca que brilha nas locadoras.

Jeffrey Lebowski (Jeff Bridges), que se autointitula "O Cara", se acha o cara (sem trocadilhos) mais esperto do pedaço. Não trabalha, mora em um apartamento fétido e gasta os dias jogando boliche com os amigos.
Tudo muda quando ele é confundido com outro Lebowski, um milionário que teve a esposa raptada. A partir daí, a vida dele vira de cabeça para baixo, sem que ele dê a mínima importância para tudo isso. O que ele quer é apenas ter o tapete dele de volta (Não entendeu? Assista o filme, por favor!).

O filme todo é uma reunião de situações atípicas, algumas simplórias, outras paranóicas, quase todas deliciosamente engraçadas. O mesmo vale para os personagens que os Irmãos Coen despejam durante o filme, para a nossa felicidade; pessoas estranhas, com peculiaridades tão absurdas (ou não...) que nos fazem franzir as sobrancelhas assim que as vemos pela primeira vez.

Jeff Bridges está muito à vontade no papel de Jeff Lebowski, sempre mal vestido, como se tivesse acabado de levantar da cama, às duas horas da tarde. Sempre preocupado em beber, ele parece estar atrasado no tempo umas duas décadas.
Destaque para alguns colaboradores frequentes dos Irmãos Coen, como John Goodman, excelente como o amigo veterano do Vietnã, totalmente paranóico e crente em teorias da conspiração, e Steve Buscemi, o coadjuvante que só aparece quanto Walter (Goodman) o manda calar a boca.
Ainda temos John Turturro, hilário como o jogador de boliche Jesus, um latino arrogante, com sotaque caricato, que se veste de rosa o tempo todo. Para completar a lista, Philip Seymour Hoffman e Julianne Moore vêm de bônus.

Algumas cenas são marcantes. Não chegam a ser antológicas, mas Lebowski voando com a bola de boliche e depois caindo na pista é, pelo menos, viajante. Isso sem falar de quando ele é drogado e sonha que estrela um filme pornô com Julianne Moore, com temática de boliche. Fantástico!

A trilha sonora ajuda bastante, com destaque para Bob Dylan, Elvis Costello, Henry Mancini e a melhor de todo o filme, Hotel California, dos Eagles, interpretada pelos Gipsy Kings, em espanhol.
Aliás, a cena com John Turturro se preparando para jogar boliche ao som dos reis ciganos não pode ser descrita por algo menos do que fora de série.

Para quem gosta de filmes com início, meio e fim muito bem definidos, com certeza, este não será o melhor dos programas, seja para um sábado à noite ou para uma terça-feira depois do almoço.

Agora, se você gosta de histórias sem muitas conecções, situações absurdas e de gosto duvidoso, diálogos sem pé nem cabeça, Jeffrey Lebowski é O Cara!

Nota: 7/10

Felipe Edlinger
21 de setembro de 2007

sábado, 15 de setembro de 2007

[MovRev] Extermínio

(28 Days Later)

Directed by Danny Boyle

Esqueça os clássicos "A Noite dos Mortos Vivos" e "Amanhecer dos Mortos" e as neo-bobagens da série Resident Evil. Se você é um fã do trabalho de George Romero ou ainda do famoso jogo de Playstation, não o culpo, mesmo porque são ótimos trabalhos sobre um mesmo tema.

Porém, venhamos e convenhamos que a obra cinematográfica definitiva sobre zumbis e mortos-vivos tem um nome: Extermínio.

Para aqueles que não ainda não assistiram a esse formidável filme, a trama é a seguinte: um vírus, inoculado em macacos, sai do controle das autoridades e se espalha por toda Inglaterra, transformando as pessoas, em questão de segundos, em pseudo-zumbis raivosos. Um jovem (Cillian Murphy, o espantalho de Batman Begins), aparentemente em coma, acorda em um hospital de Londres e descobre que a cidade está deserta, evacuada por causa da contaminação em massa. A partir daí, é uma corrida pela sobrevivência e pela aceitação de que o país nunca será o mesmo.

Talvez, nas mãos de qualquer outro cineasta, o filme pudesse soar um pouco mais como a herança trash da década de 80, mas Danny Boyle, sim, a mesma pessoa abençoada que nos trouxe "Cova Rasa", "Traisnpotting" e "A Praia" (os dois primeiros são clássicos recentes indiscutíveis, o último é apenas uma contraditoriedade pessoal deste que vos escreve), nos entrega com maestria os sentimentos de medo, terror e desespero.

Desespero, sim, não apenas pelo fato de zumbis terem tomado conta do país, mas o desespero pelo abandono, pela solidão e isolamento que tomam conta de Jim, o jovem que sai do coma. As cenas da cidade de Londres, capital da Inglaterra, em total estado de deserção são, ao mesmo tempo, impressionantes e incômodas. Apesar de experiência parecida já ter sido produzida um ano antes, em Vanilla Sky, com Tom Cruise, desta vez o cenário é muito pior.

Imagine-se andando pelas ruas de sua cidade, sem viv'alma nas ruas e, de repente, você percebe que todos deixaram a cidade e você é o único sobrevivente. Aliás, você não sabe nada da história porque ficou o último mês internado em um hospital.

Quanto aos zumbis, que não são necessariamente zumbis, nem leve em consideração os zumbis azulados e rastejantes de Romero ou os monstros apocalípticos de Jill Valentine. Pense em algo mais realista, mais paupável. Estamos falando de pessoas comuns, ágeis como qualquer ser humano, e não dotadas de super poderes mutantes, sedentas por sangue e carne fresca, extremamente raivosas. Pronto, esses são nossos inimigos neste filme, sem contar que poderiam ser seus amigos, conhecidos e até seus pais.

A trilha sonora, composta por John Murphy, também ajuda bastante na criação do clima proposto por Danny Boile, alternando momentos de total
agonia (como a cena de desolação da cidade), insanidade (qualquer cena com os soldados no centro de comando) e, por incrível que pareça, despretensão e alegria (cena do supermercado).

No mais, apenas tenho a dizer que é um filme indispensável para aqueles que gostam do gênero. Para os que não estão acostumados, que se preparem para cenas de arrepiar, não com os tradicionais truques baratos do cinemão de suspense, mas com uma história que poderia muito bem ser verdade. Woooo, scary...

Nota: 9/10

Felipe Edlinger
15 de setembro de 2007

terça-feira, 4 de setembro de 2007

[MovRev] Piratas do Caribe - No fim do Mundo

(Pirates of the Caribbean - At World's End)

Directed by Gore Verbinski

Confesso que não esperava muito de Piratas do Caribe - No Fim do Mundo, o que, no final, foi ótimo pra mim. Depois de assistir à este filme, fiquei com a sensação de que já havia visto algo parecido.

Na verdade, a sensação era de decepção, mesmo não esperando muito; o que havia acontecido também quando assisti ao terceiro episódio da trilogia Matrix (Revolutions): primeiro filme, excelente e fantástico por renovar um tema e apresentar originalidade o suficiente para ser sempre lembrado; segundo filme, muito bom devido aos efeitos especiais e ao entretenimento descompromissado; e terceiro filme, ruim pelo fato de ser longo, com enredo confuso e cheio de absurdos.

Piratas do Caribe - No Fim do Mundo é isso tudo, um filme longo demais, com cerca de 2 horas e 40 minutos, muito confuso para a maioria dos fãs, e com tantos absurdos que até Jack Sparrow fica meio sem jeito.

Resumindo, Elizabeth Swann (Keira Knightley), Will Turner (Orlando Bloom) e Capitão Barbossa (Geoffrey Rush) devem resgatar Jack Sparrow da terra dos mortos e enfrentar Davy Jones e Lorde Beckett. Para isto, eles contarão com a ajuda dos Lordes Piratas da Corte da Irmandade para derrotar a Companhia das Índias Orientais, que vem matando piratas ao redor do mundo.

Sou suspeito para tecer algum comentário sobre Johnny Depp, em minha opinião, um dos mais talentosos (e mutantes) atores de todos os tempos.
Porém, tirando Keira Knightley (que é linda e parece com uma amiga minha), Jack Sparrow talvez seja a única parte de qualidade do filme que seja constante.

O estilo bonachão, afeminado e covarde de Jack Sparrow é marcante e, como sempre, ele toma conta da tela nos momentos em que aparece. E o filme deveria ser assim, com Jack Sparrow dominante e não com a tela repartida democraticamente entre o número enorme de coadjuvantes.

Sempre que o Capitão Jack Sparrow aparece, as cenas ganham vida e viram antológicas, como as cenas em que ele contracena com vários Jacks, nos momentos de divagação e loucura do personagem.

Mesmo assim, ainda podemos ver alguns outros personagens bacanas novamente como o Capitão Barbossa, de Geoffrey Rush, e o Capitão do Holandês Voador, Davy Jones, impecáveis. Além dos outros novos personagens, os Lordes Piratas, cada qual pitoresco a sua maneira.

Mas o filme não deixa de ser longo e confuso, como havia mencionado, e com tantas reviravoltas que o fato de alguns personagens serem cool não ameniza os lados ruins.

Os efeitos especiais continuam fantásticos, demonstrando que o pessoal da ILM (Indutrial Light & Magic) continuar afiado e criativo. As mais de 200 cenas com efeitos especiais valeram mais um Oscar para a trupe (eles já haviam ganhado outro por Piratas do Caribe - O Baú da Morte), liderada por John Knoll e Charles Gibson.

Ao final do filme fiquei ainda mais desapontado porque torcia para Jack Sparrow dar uns pegas com Elizabeth Swann, mesmo indo contra tudo o que já foi mostrado entre ela e o personagem de Orlando Bloom, Will Tuerner, nos outros dois filmes. Obviamente, isso não aconteceu.

Pelo menos, o chatão Will Turner ficou preso em uma ilha de localização desconhecida e somente pode ser visitado a cada 10 anos. Prova de que ele era muito melhor como Legolas.

Brincadeiras à parte, a pérola do filme fica a cargo de Keith Richards, eterno Rolling Stones, interpretando o pai de Jack Sparrow, Captain Teague, Guardião do Código dos Piratas. Apesar da experiência quase nula como ator, Mr. Richards está muito à vontade no papel. Isso sem contar que ele é a lata de Jack Sparrow.

Nota: 4/10

Felipe Edlinger
04 de setembro de 2007

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

[MovRev] Transformers

(Transformers)

Directed by Michael Bay

Michael Bay gosta de explosões, sons de destruição e efeitos especiais, correto? Certíssimo, qualquer um pode dizer isso somente por se lembrar de A Rocha, Armageddon ou Pearl Harbor.
Não necessariamente grandes filmes, todos as obras citadas contém os elementos favoritos de Bay, tornando-as filmes grandes. E, também, grandes equívocos, grandes besteiras, grandes piadas. Mesmo assim, grandes blockbusters.

Opiniões à parte, não ligo nem um pouco para as críticas sobre Michal Bay (mesmo porque também não gosto muito do cara...), o que me importa é que ele nos trouxe este Transformers, novo em folha, reformulado, e com o mesmo charme da década de 80.

O enredo do filme é bastante simples: Decepticons (robôs malvados) vêm do extinto Planeta Cybertron para a Terra em busca de um cubo de Energon, capaz de fazê-los dominar o planeta. Cabe aos Autobots (robôs bonzinhos), tentar impedí-los de conquistar o planeta e exterminar a raça humana.

Michael Bay acertou nos efeitos visuais ao retratar os Autobots Optimus Prime (Carreta Scania), Bumblebee (Camaro), Jazz (Pontiac), Ironhide (Pickup GMC 6500) e Ratchett (Hummer H2) e os Decepticons Blackout (Helicóptero Sikorsky), Starscream (F-22) e Barricade (um Mustang da polícia). Talvez a única bola fora tenha sido Frenzy, um Decepticon que se transforma em pequenos objetos eletrônicos, como um celular ou aparelho de som.

Agora, cá entre nós, uma de minhas preocupações (faaala, nerd!) era a modificação de BumbleBee, antigamente caracterizado como um Volkswagen, ou simplesmente Fusca, para nós brasileiros. A primeira imagem que veio a minha cabeça de um Fusca em um filme modernoso não pareceu muito adequada, mesmo sendo um New Beetle. Mas o Camaro apresentado por Bay transformou o simpático carrinho em um estiloso Camaro amarelo. Ponto pra ele!

Além disso, temos um arranca-rabo daqueles entre Optimus Prime, perfeito com pintura metalizada azul e vermelho, e Megatron. Ambos imensos, com vozes poderosas para intimidar qualquer um: Petter Cullen, voz original do próprio Prime dos desenhos animados da década de 80 e Hugo Weaving, o eterno Agente Smith que empresta sua voz para o líder dos Decepticons, Megatron.

Fiquei tão empolgado com a caracterização de Optimus Prime que, sem perder tempo, comprei uma miniatura para colocar em minha estante (faaala, nerd!), definitiamente mais detalhada e mais "realista" do que as baseadas no desenho original.

Talvez um ponto baixo do filme seja o fato de os robôs terem ficado muito cibernéticos, com muitos fios e metais para todos os lados, tornando difícil a tarefa de identificar quem é quem e que parte dos robôs estão aonde. Neste item, Michael Bay nos fica devendo um pouco mais a humanização dos personagens, quando se comparados com os desenhos, fica evidente que antigamente, as caras e bocas eram mais perceptíveis.

Por outro lado, temos cenas de luta muito realistas, se assim posso dizer, e muito bem coreografadas.
Além disso tudo, fomos presenteados com um trilha sonora de primeira categoria para aqueles que gostam de um rock mais agitado, como HIM, Julien KK, Smashing Pumpkins. Taking Back Sunday e The Used dão um toque mais Pop, enquanto Mutemath não faz feio com a nova versão da saudosa música tema.

Quem se dá bem é o "novato" Shia Lebouf (Constantine e I, Robot), que interpreta Sam Witwicky: ele ganha Bumblebee de presente do pai, pega a deliciosa Megan Foz (uma gata entre Demi Moore e Jordana Brewster), passa de nerd a herói interplanetário e, ainda por cima, fará companhia a Harrison Ford na quarta aventura de Indiana Jones no Cinema.

Mais uma vez, obrigado Michael Bay, por me fazer sentir com 9 anos de idade de novo. Transfomers, more than meets the eye! Transformers, Robots in the Skies!

Nota: 7.5/10

Felipe Edlinger
03 de setembro de 2007

domingo, 2 de setembro de 2007

[MovRev] Duro de Matar 4.0

(Live Free or Die Hard)

Directed by Len Wiseman

Definitivamente, o ingresso valeu a espera para assistir o novo filme de Bruce Willis, a quarta parte da série Duro de Matar.
Não é à toa que todos nós adoramos o cara, mais uma vez encarnando o policial duro na queda, antiquado e sarcástico, John MaClane.

Todos dizem que John é a "pessoa errada na hora errada". Eu diria que ele é a "pessoa certa na hora certa"; afinal de contas, em quaisquer outras variâncias do tema, não teríamos duas pérolas do cinema de ação: Duro de Matar, o primeiro da série, e este Duro de Matar 4.0 (poucos casos em que o título em português merece aplausos)*.

Neste filmaço, John enfrenta uma ameaça bem fora de sua alçada, um terrosita virtual interpretado por Timothy Olyphant, o badguy bacana de Vamos Nessa e Show de Vizinha, infelizmente, não tão cool quanto nos outros filmes.

O contra-ponto de John é o hacker de Justin Long que, apesar de não ser um brilhante ator, traduz muito bem o conflito entre a velha escola e a realidade cibernética. Justin traduz toda a pré-potência da geração Counter Strike, assim como o medo eminente de enfrentar situações reais.

No final das contas, quem salva o dia, é novamente John McClane, extremamente em forma para os seus 52 anos, provando que nem mesmo as firulas e acrobacias de Maggie Q são páreo para o último legítimo action hero.

Já vimos Stallone de volta às telas, mas parece que o acontecimento foi apenas um "descanse em paz, Garanhão Italiano". Enquanto isso, Schwarzenegger curte a carreira política e já virou até presidente dos Estados Unidos em Os Simpsons, O Filme. Resta mesmo o bom e velho Bruce Willis, em minha opinião, longe de se aposentar!

Se alguém discorda disso, peço para que comentem apenas duas cenas deste filmão: o engarrafamento dentro do túnel e a perseguição de um F-35 ao caminhão dirigido por Bruce Willis.

Vale a pena conferir, também, a ponta de Mary Elizabeth Winstead, bela atriz que já fez filmes dispensáveis, como O Chamado 2, e bobeiras bacanas, como Premonição 3. Recentemente pode ser vista em Prova de Morte, de Quentin Tarantino.

O orgasmo dos nerds, com certeza acontece quando Kevin Smith entra em cena, com seu nerd (dããã) de 37 anos enfurnado no porão da casa da mãe, ao qual chama de "Central de Comando".

Caso alguém ainda não tenha visto Duro de Matar 4.0, sejam quais forem as razões, sigam meu conselho: não se arrumem para ir ao cinema, chame algum fã de adrenalina para ir com você e pegue a próxima sessão no cinema mais perto. Não haverá arrependimento!

E vida longa a John McClane, David Dunn, Korben Dallas and Butch Coolidge.

Yippee-ki-yayy!

Nota: 8/10

Felipe Edlinger
02 de setembro de 2007

*para os que não sacaram o título em português, tudo bem que Bruce Willis é cinquentão, mas o 4.0 é uma referência a idade do personagem. =)

quarta-feira, 27 de junho de 2007

[Cron] Eu te amei por cinco vezes

- Ana Flávia?
- Eu, mesma!
- Oi... é o Fábio... lembra de mim?
- Oiiii, Fábio! Claro que lembro, como poderia esquecer! A gente se conhece a tanto tempo.
- Pois é, e põe tempo nisso!
- Verdade, uns 8 anos não é mesmo?
- Não, são mais do que 15. Depois disso, parei de contar.
- Parou de contar? Você contava há quantos anos a gente se conhecia?
- Bem, você sabe que você foi o grande amor da minha vida...
- Séééério??? Mentira...
- Ana Flávia! Você não lembra da festa de 15 anos da Laura?
- Laura? A Laurinha?
- Ela, mesma.
- Nossa, claro! Foi lá no Country Club, não foi? Demais!
- Pois então, você não lembra que eu disse que te amava naquela noite, na décima segunda música?
- Você estava falando sério?
- Não, Ana Flávia, eu adorava brincar com os sentimentos dos outros...
- Ah, bom...
- É claro que estava falando sério, Ana Flávia! Eu te amava perdidamente!
- Mas nós éramos muito novos, eu não sabia... Desculpa...
- Por mais piegas que possa soar, o amor não tem idade!
- ...
- E aquela vez, no terceiro colegial, que nós fomos ao cinema com o pessoal da escola, ver aquele romance que você queria?
- Que filme lindooooo! Nem consegui falar durante a sessão toda!
- Eu sei, cada lágrima que você derramava me partia o coração...
- Como você sabe que eu chorei naquele filme?
- Eu nem me lembro do filme direito, só tinha olhos pra você!
- Você ficou me olhando durante a sessão? Seu bobo...
- Ana Flávia, eu te amava!
- Séééério??? Mentira...
- Eu disse que te amava naquela tarde...
- Acho que me lembro... Você estava falando sério?
- Não entendo como você pode pensar desta maneira.
- Mas eu pensei que você só queria se aproveitar de mim porque eu estava emocionada... Desculpa...
- ...
- Lembro, também, que a gente entrou na faculdade juntos, lembra?
- Claro, Ana Flávia, lembro de cada festa que fomos, inclusive aquela no quarto ano.
- Verdade, aquela festa da Tequila, não foi?
- Essa mesma, você estava linda de mexicana!
- Ai, que vergonha... como você pode lembrar disso?
- Bem, eu também disse que te amava naquela noite...
- Nãããoooo... Naquela hora em que eu fui descansar atrás da barraca, não foi???
- Isso, mesmo! Queria tanto te beijar!
- Mas eu pensei que você estivesse bêbado... Desculpa...
- Ana Flávia, eu nunca havia bebido na minha vida, e você sabia disso...
- ...
- Águas passadas, daí nos formamos e eu fui pra Europa, e só voltei tempos depois.
- Eu lembro, encontrei com você em um bar, no centro da cidade, você tinha mudado bastante. Pra melhor, é claro! 'Tava de barba, bem arrumado.
- Obrigado. Lembro que conversamos muito naquele dia.
- Depois você me levou até em casa. Lembro que você estava namorando.
- Mas lembro também que eu disse que te amava, em frente ao portão da sua casa.
- Você estava namorando!
- Eu disse que ela não era nada pra mim, que minha vida não tinha significado sem você...
- Mas eu pensei que você ainda gostasse dela... Desculpa...
- Ana Flávia...
- Ei, e aquela história do seu noivado de três anos?
- Você, sempre você.
- Como assim?
- Não dá pra entender, eu desmancho um noivado de três anos, perto do casamento, largo tudo e vou correndo atrás de você e, pela quinta vez, disse que te amava... e você... nada...
- Era verdade?
- Como não poderia ser? Não sabia mais o que fazer...
- Mas eu pensei que você só queria afogar as mágoas... Desculpa...
- Ana Flávia, nunca vou te entender...
- ...
- ...
- ...
- ...
- Fábio...
- Oi, Ana Flávia...
- Acho que eu te amo!
- O quê?
- Eu te amo!
- Não, não ama, Ana Flávia!
- Claro que sim!
- Ana Flávia...
- Eu te amo! Agora vejo que fui uma tola por ter deixado você partir...
- Partir? Você me rejeitou por cinco vezes!
- Eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo, eu te amo!!!
- A vida não é simples assim...
- Mas nós podemos simplificá-la, se quisermos, Fábio querido!
- Hoje, não creio nisso, Ana Flávia...
- Mas, Fábio...
- Preciso ir, Ana Flávia! Quem sabe a gente se esbarra por aí...
- Fábio, você não pode deixar um mero momento roubar nossa felicidade!
- Ana Flávia, aos 15 anos, você roubou minha inocência. Aos 17 anos, você roubou minha mente. Aos 20, você roubou meu coração. Aos 23, minha alma. E aos 26, minha vontade de viver. Não creio que haja mais alguma coisa para ser roubada...
- Eu juro por tudo o que é mais sagrado, EU TE AMO!!!
- Por favor, não comece...
- Quantas vezes vou precisar te dizer? Mais cinco?
- Você está dizendo a verdade?
- É claro que sim, meu amor!!! Eu te amo!!!
- Bom, Ana Flávia, estou indo... Um abraço...
- Você não escutou o que eu disse???
- Claro que sim, como não poderia...
- E então, vamos ficar juntos?
- Não...
- Como não, e o que eu acabei de dizer??? Não entendo...
- Mas eu pensei que você não tinha falado com o coração... Desculpa...

Felipe Edlinger
27 de junho de 2007

(Inspirado no grande L. F. Veríssimo, se é que os textos publicados na internet são dele...)

quinta-feira, 7 de junho de 2007

[Cron] Os Últimos Segundos de Minha Vida

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por Felipe Edlinger
07 de junho de 2007
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Ontem à noite, quase virei um número. Na verdade, mais um número, mais uma parte de uma estatística da qual ninguém gostaria de fazer parte.
Eu, como todos, também nunca quis, mas talvez tenha esquecido de dizer isso para o lado etílico do meu cérebro, para a baixa resistência e cansaço do meu corpo, e para o poste com o qual me encontrei no acostamento.

Ainda me pego pensando como uma colisão frontal com um poste, que destruiu a dianteira de meu carro, poderia não me deixar um hematoma sequer. E como um simples deslize pode colocar toda uma história a perder, ou melhor, várias histórias, várias existências.
Fico pensando sobre os possíveis desdobramentos de atos como esse, sobre o certo e o errado, sobre as responsabilidades e as inconseqüências.

O peso nos ombros, no coração e na mente é enorme, mas tenho consciência que não é nada quando comparado ao fardo de outras pessoas. Agradeço por nada sério ter ocorrido comigo porque nunca me perdoaria pelo sofrimento das pessoas que tanto prezo e amo.
A vida não é um filme feito para cinema. Apesar das temáticas serem muito parecidas, não são duas horas de entretenimento que resumirão toda uma existência. Uma vida não é feita de 120 minutos, mas pode terminar em muito menos do que isso.

Posso dizer que, hoje, minha vida parece completa, e agradeço muito por todo o sucesso e felicidade que obtive até agora, seja pessoal, profissional ou socialmente. Tenho uma perspectiva de um futuro excelente, tenho uma família que me ama incondicionalmente, e tenho alguns amigos pelos quais me sacrificaria. Então, me pergunto dos porquês desse acontecimento.

Justo eu, que, em termos, desprezo as irresponsabilidades e inconseqüências dos seres humanos, encontro-me sendo martirizado e punido pelo meu pior crítico, eu mesmo. Não me perdôo pelo que aconteceu, pela minha falta de prudência e pela minha auto-confiança. Até ontem não havia feito nada de que poderia me arrepender do fundo de minha alma, mas hoje o ponto de vista já é outro. Culpo-me por tudo, até porque acredito que controlamos a nossa linha do tempo e tudo o que fazemos é de nossa responsabilidade. Felizmente, ainda estou aqui, e talvez, isso tenha uma razão.

Não sou religioso porque não acredito nas instituições religiosas, mas tenho uma boa espiritualidade. Não acredito em verdades e negações absolutas pregadas por fiéis, porém, acredito que existe alguém lá em cima que, de uma maneira ou de outra, olha por nós.
Também não creio que nossa vida tenha um destino pré-definido, mas um caminho superficial que pode tanger toda a nossa existência.
Por outro lado, esse caminho não é um padrão e acredito piamente que podemos mudar o curso da nossa estrada quando quisermos. Hoje, acredito que, de alguma maneira, o meu curso foi mudado.

Hoje, penso nas pequenas coincidências que não transformaram essa minha casualidade em tragédia. O cinto de segurança, a velocidade entre 60 e 70 km/h, a estrada deserta, o fato de não estar acompanhado. As conseqüências poderiam ter sido muito piores e a angústia que me corrói por dentro poderia estar corroendo outras pessoas.

Todos conhecem a expressão que diz que a sua vida inteira passa diante de seus olhos em um momento de proximidade com a morte. Por outro lado, felizmente, poucas pessoas podem dizer que isso é realmente verdade.
Eu diria que a expressão é verdadeira, porém, incompleta. Naquele momento, toda a minha vida até agora realmente passou diante dos meus olhos, as experiências, as pessoas, a família, os amores. Além disso tudo, os momentos que ainda não vieram também estavam lá, os amigos que ainda não conheci, os sorrisos que ainda não foram estampados, os desejos não concretizados, os sonhos não realizados.

Mesmo já amando os detalhes da vida, compreendo hoje, ainda mais, a beleza única de um por do sol, a sinceridade do abraço de meus pais, o amor incondicional de meu irmão, os gracejos de minha cachorra ao amanhecer, a fidelidade de meus verdadeiros amigos, a felicidade e a tristeza de uma lágrima.

Tanto por tão pouco. Felizmente, não tenho um único arranhão em meu corpo, mas a mente já tem suas seqüelas. Por mais que eu não goste de pensar nos "e se" da vida, é praticamente impossível não trazê-los à tona. Pode ser que estes sejam meus únicos demônios de toda a minha estadia neste plano, o que torço para que seja verdade.

Nesta vida, ou em outra qualquer, não existem super homens, não existe "isso nunca acontecerá comigo", não existe "não acontecerá novamente". Somos feitos de carne e osso e, por mais resistentes que pensemos ser, não o somos. Não somos onipresentes, oniscientes, onipotentes. Não somos nada para o mundo, mas podemos ser o mundo de alguém.
Um mundo que pode desmoronar por um simples deslize, por um simples erro, um lapso. Ontem, hoje, ou amanhã. Não sabemos quando, mas podemos tomar providências para que as probabilidades sejam menores.

Eu aprendi uma lição ontem. Aprendi que somos falíveis e que todos temos direito ao erro. Feliz ou infeliz, errei brutalmente, mas esse meu erro não me trouxe conseqüências sérias. Sei que muitos outros podem não ter tido ou não terão a mesma sorte. Agradeço por mim e suplico por eles.

Estou ótimo. Como disse, nem um único hematoma visível mas, com certeza, aqueles nos quais não podem mirar, são os mais pesados para mim e para meus ombros. Sou grato a quem quer que seja, por não ter uma crônica em meu arquivo, com os verdadeiros últimos segundos de minha vida. Pelo menos, não por enquanto. Tenho planos de viver mais setenta e quatro anos e, depois de ontem, tomarei as providências necessárias para que eu chegue ao meu centenário.

Penso em minha amada família e em meus amigos, porque são eles que tornam minha vida agradável e, com certeza, viva, e que, sempre, me fazem querer viver mais. Se eu não tivesse com quem dividir o agora, talvez eu não estivesse aqui neste momento.
Vejo que tenho tanto a agradecer, tanto a repartir, a dizer e a fazer, que não tenho palavras, nem idéias de por onde começar. Tenho uma vida inteira pela frente, e pretendo desfrutá-la da melhor maneira possível.

Hoje, estou vivo. Isso é o que importa.

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